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Ficamos muito felizes com o contato, e esperamos que vocês também gostem da história do Harry. Visitem a página dele para ver o texto completo!
De pastor evangélico a ateu
Eu nasci em um lugar no Brasil que determinou que minha religião fosse a cristã. Católicos e evangélicos são as principais religiões no Brasil. Se você é brasileiro há grandes chances de ter nascido em uma família de fé cristã, assim como eu, seja ela católica ou evangélica. Nasci e cresci no convívio da igreja, me envolvi com teologia, ensino e me tornei pastor, exercendo sempre de forma voluntária. Nunca fui remunerado pela igreja e nem dependi disso pra sobreviver. Como o convívio e o amor pela família e todos os laços afetivos que criamos essa foi a fé que se fortaleceu na minha vida, e sempre a exerci com muita convicção. Eu era do tipo apegado a interpretação bíblica e a doutrina como base necessária da fé. Participava de discussões teológicas, dava estudos e liderava grupos. Por que a medida em que vivemos sempre a sombra dessa nossa única perspectiva de onde nascemos e daquilo que aprendemos com nossos pais, temos a tendência de enxergar nosso ponto de vista como uma verdade indiscutível, que não vale a pena e nem faz o menor sentido “duvidar da existência de deus”, por exemplo. Eu também era dessas pessoas que não duvidava da fé.
A ótica da civilização em que boa parte de nós nasceu descende dessa tradição e dessa forma de explicar a existência do homem e do universo, logo fui educado para acreditar e dar continuidade nessa tradição, como se isso fosse a uma coisa correta a ser feita da minha vida. Eu sei como é o sentimento de sentir a presença de deus, conheço o que é sentir o carinho das mãos de deus durante minhas orações, soube o que era se alegrar com “as verdades da fé” e com aquilo que só é experienciado “espiritualmente”. Sei disso tudo, simplesmente porque esses eventos ocorrem no nosso cérebro, são coisas que se aprende, são interpretações que vão sendo enraizadas na nossa cabeça e no imaginário coletivo da cultura ao nosso redor.
“Toda verdade passa por três estágios. No primeiro, ela é ridicularizada. No segundo, é rejeitada com violência. No terceiro, é aceita como evidente por si própria.“, disse certa vez um filósofo alemão chamado Arthur Schopenhauer. Pois é assim mesmo que ocorre com o ego de nossas convicções pessoais. Na minha vida o deus cristão já foi a resposta e a explicação absoluta da existência do universo. Tudo fazia sentido porque essa era a história que havia sido contada desde o início do século I da era Cristã, percorrendo séculos até chegar no meu pai e na minha mãe, que por consequência chegou até mim. E não é fácil aceitar que você esteve fundamentalmente errado durante todos esses anos da sua vida. Se você resolve ser sincero, há dezenas de implicações sociais difíceis de lidar que deixará sequelas na sua vida. O golpe final no ego e na minha fé, em querer estar certo naquilo que eu acreditei durante os quase 30 anos da minha vida, foi me dar conta que a história de Jesus é plágio de mitologias egipsias escritas 3.000 anos antes de Cristo, como as histórias de Hórus e Osíris, dentre vários detalhes de outras mitologias antigas. O nascimento de uma virgem, o 25 de dezembro, a trindade, os 3 reis magos, a crucificação entre 2 ladrões e vários outros detalhes da vida de Jesus e do novo testamento estão em textos egípcios mais antigos que a Bíblia a cristã. A própria história de Jesus é um plágio e provavelmente ele nunca existiu.
Mesmo que você se esforce em dizer aos cristãos a respeito do plágio de Hórus e Osíris, mitologias anteriores a Jesus, eles insistem em negar, ridicularizar e se voltam completamente as suas próprias verdades. Isso ocorre principalmente por causa de um viés cognitivo que todo ser humano tem em seus cérebros, chamado de “Viés da Confirmação”, leia o texto da física brasileira Rosana Hermann, como primeira URL que compartilho no blog, para entender com mais detalhes o que viés da confirmação significa. Viés é uma tendência, desvio de percepção, uma espécie de “bug” do nosso cérebro, que faz com que tenhamos a tendência de dar ouvidos apenas aquelas informações que confirmam aquilo que nós já acreditamos e ignorar aquelas que confrontam nossas crenças. Mesmo que a informação que nós possuímos seja no final das contas a informação errada.
As interpretações mais comuns que os cristãos oferecem em relação ao plágio dos mitos egípcios é que esta informação trata-se de tentação do demônio, desvio da fé, desvio da verdade, blasfêmia, provas forjadas tendenciosas, ataques a fé, etc etc etc. Simplesmente, porque aos homens e mulheres de fé, não os interessa se o universo de fato está se expandindo ou que a evolução é uma realidade factual, interessa a eles apenas que sua religião é a correta sobre as outras, que seu deus é o único verdadeiro e eles são “os escolhidos” a serem salvos do inferno. Ao restante nós, aqueles que não concordarem e crer pela fé, a parte que nos cabe é o lago de fogo e enxofre e a danação eterna. Nós vivemos em torno dessa explicação do universo há mais de 2.000 anos sem se dar conta que nossa própria religião é um plágio de uma mitologia 3.000 mais antiga do que o novo testamento, a base da fé cristã. Não existe demônios, anjos, deuses e nenhum outro tipo de seres imaginários criados para explicar eventos da natureza. Não vivo mais em um universo assombrado pelos demônios. Minha fé acabou aos 28 anos de idade.
Como exatamente essa grande mudança ocorreu?
Estudei teologia, grego, hermeneutica, história, arqueologia bíblica, semiótica, cânon, filosofia e todos os detalhes da história do cristianismo desde os 18 aos 24 anos de idade. Depois estudei história das religiões aos 25. Aos 27 anos, como auto-didata, esbarrei com a antropologia e as coisas na minha vida começaram a ganhar outras perspectivas. Eu simplesmente estava entrando em um universo novo e comecei a ser sincero com as perguntas que surgiram. Minha angustia com o humano sempre foi em querer saber quem nós somos e de onde nós viemos. A Bíblia dava esse resposta mas não explicava a diversidade cultural, que no caso, foi papel da antropologia responder. Essa curiosidade de tentar nos entender como pessoas, como humanos tão diferentes e tão iguais, através de tantas perspectivas, tantos olhos sinceros abraçados com suas próprias convicções foi a fagulha principal da minha curiosidade. E diante do conhecimento de tantas crenças tendemos a nos tornar céticos em relação a todas elas. Por isso me dei conta de uma falha de pensamento básica da estrutura da minha fé: eu acreditava que meu deus era o único deus verdadeiro, quando na verdade tanto o meu quanto todas as centenas de milhares de diferentes divindades, de centenas de diferentes culturas de todos os tempos, foram todos inventados. Você percebe que deuses são invenções humanas, são histórias, explicações, mitos criados pra explicar cada um a sua maneira, os fenomenos da natureza, da existência do universo, do homem. Deuses surgiram e se propagaram em uma época em que não havia ciência e outros métodos mais precisos de investigação da natureza, como nós temos hoje. A eletricidade foi dominada pelo homem há pouco mais de 200 anos atrás. Até então, os raios das tempestades eram vistos como manifestações de deus. Chuvas, trovoadas, eclipses, fenômenos naturais, etc, para tudo havia um mito, uma explicação, um deus, uma história associados com esses fenômenos naturais. No início dessa minha transformação senti medo, solidão, pensei muito em como poderia lidar com isso em relação as pessoas do meu convívio, até que saí da igreja e consequentemente saí do convívio de toda a comunidade e da grande maioria das pessoas que eu conheci por vários anos da minha vida. Um ano após perder a fé deixei o Brasil e fui morar em outro país. Detalhes serão poupados para preservar minha identidade.
Somos centenas de povos e tribos diferentes vivendo em um mesmo planeta. Descobri com a antropologia que em cada um desses lugares há convicções tão diferentes das minhas e fica óbvio o quanto suas crenças diferentes eram tão reais, fazem tanto sentido quanto as minhas. Simplesmente porque em cada lugar que uma criança nasce ela cresce e aprende a amar as características e a cultura local de onde ela nasceu, por consequência as crenças, a fé. E diante de tantas novas informações não há como deixar de fazer a seguinte pergunta: porque o meu deus, a minha religião e a minha explicação do universo é a única verdadeira se centenas de povos pensam com a mesma convicção que eu, que seus deuses é que são os verdadeiros? Já se fez essa pergunta? Sua visão de deus é tão sólida pra você quanto a do judeu é pra ele mesmo, a do árabe é pra ele mesmo e a do cristão é pra ele mesmo e a do índio é pra ele mesmo. Se você observar bem verá que somos todos iguais, todos queremos ser felizes e de preferência queremos estar certos. Todos nós queremos um futuro pra nossas crianças, queremos saúde para nossos pais e para nossa família. Todos nós queremos prosperidade. Encarar a realidade da minha vida de frente sob uma outra perspectiva mais ampla, mesmo que parecesse algo muito contraditório do que eu acreditava na época, foi a força motriz principal da mudança de perspectiva da minha vida.